Uso prolongado de telas pode causar olho seco e afetar a concentração

Oftalmologista da Hapvida explica os sintomas da fadiga ocular digital, alerta para os riscos da automedicação e orienta sobre hábitos que ajudam a proteger a visão

 

Celulares, computadores e tablets fazem parte da rotina de trabalho, estudo e lazer. Mas passar longos períodos diante das telas, sem pausas e com poucas piscadas, pode provocar ressecamento, ardência e visão embaçada, além de prejudicar a concentração e a produtividade. O problema, conhecido como síndrome do olho seco digital, exige atenção especialmente quando os sintomas se tornam frequentes.

De acordo com o oftalmologista da Hapvida, Antônio Jordão, o desconforto está relacionado principalmente à redução da frequência das piscadas durante o uso de dispositivos eletrônicos. “Quem passa horas no celular, no computador ou no tablet tende a piscar bem menos do que o normal, e cada piscada fica mais curta, sem fechar a pálpebra por completo. A superfície do olho perde a hidratação e o problema se instala aos poucos”, explica.

A síndrome pode provocar vermelhidão, ardência, coceira, sensação de areia nos olhos e visão que oscila ao longo do dia. Também podem ocorrer lacrimejamento, peso nas pálpebras e dor de cabeça, especialmente após períodos prolongados de leitura ou trabalho diante de monitores.

Sintomas podem comprometer o rendimento

Além do desconforto físico, a fadiga ocular digital pode interferir nas atividades cotidianas. Quando a visão fica instável e os olhos precisam fazer esforço para manter o foco, tarefas simples podem exigir mais tempo e atenção. “Quem enxerga com esforço não mantém o foco, e o cansaço visual faz a pessoa perder a concentração. O estudante lê a mesma linha duas ou três vezes, o profissional perde ritmo e comete mais erros, e a irritabilidade só aumenta”, afirma Jordão.

O médico recomenda observar a frequência e a duração dos sintomas. Quando o desconforto melhora após uma pausa e uma noite de sono, pode ser passageiro. No entanto, se persistir por mais de uma ou duas semanas, retornar diariamente ou prejudicar o trabalho e os estudos, é importante procurar um oftalmologista.

Dor intensa, sensibilidade à luz e redução da visão exigem avaliação médica rápida. A presença de secreção ou desconforto durante o uso de lentes de contato também merece atenção.

Crianças e adolescentes precisam de atenção

O uso de dispositivos digitais desde os primeiros anos de vida também preocupa especialistas. Estudos associam atividades prolongadas de perto e pouco tempo ao ar livre a um maior risco de miopia na infância e na adolescência.

Segundo Jordão, as telas não são a única causa desse problema, mas podem contribuir para um conjunto de hábitos que afetam a saúde visual. “A tela não é a única causa, mas pesa bastante, e a mudança de hábitos de uma geração inteira aparece na clínica”, ressalta.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), na atualização de 2024 do documento #Menos Telas #Mais Saúde, recomenda que crianças menores de dois anos não sejam expostas às telas. Para crianças de dois a cinco anos, a orientação é limitar o uso a uma hora por dia, com supervisão. Entre seis e dez anos, a recomendação é de uma a duas horas diárias; para adolescentes de 11 a 18 anos, de duas a três horas por dia.

O especialista ressalta, ainda, a importância de incentivar atividades ao ar livre e estabelecer limites para o uso de dispositivos, principalmente entre crianças e adolescentes.

Telas não envelhecem a córnea

Apesar das preocupações com a exposição prolongada a dispositivos eletrônicos, é importante diferenciar o desconforto ocular temporário de danos permanentes à visão.

Jordão esclarece que não há evidências de que o uso habitual de telas provoque envelhecimento precoce da córnea. O que pode ocorrer é o comprometimento da superfície ocular em razão do ressecamento, com irritação e pequenas lesões que afetam temporariamente a nitidez da visão.

A luz azul emitida por celulares e computadores também costuma gerar dúvidas. Segundo o oftalmologista, não há evidências de que a exposição habitual à luz das telas, nas condições comuns de uso, danifique a retina. Entretanto, utilizar dispositivos à noite pode prejudicar o sono e afetar indiretamente o conforto ocular no dia seguinte.

Pausas e mudanças de hábitos ajudam na prevenção

Não existe um limite diário de exposição às telas que seja adequado a todos os adultos. Além do tempo de uso, fatores como a distância do dispositivo, a iluminação do ambiente, a ausência de pausas e a circulação de ar diretamente sobre o rosto podem agravar os sintomas.

Para reduzir o desconforto, o oftalmologista recomenda a regra 20-20-20: a cada 20 minutos diante da tela, olhar por 20 segundos para um objeto a aproximadamente seis metros de distância.

Outras medidas simples podem ajudar a preservar a lubrificação dos olhos:

  • Piscar conscientemente: fechar completamente as pálpebras de tempos em tempos ajuda a distribuir a lágrima pela superfície ocular;
  • Fazer pausas regulares: interromper o uso contínuo das telas e olhar para longe reduz o esforço visual;
  • Ajustar a tela: adequar o brilho à iluminação do ambiente, aumentar o tamanho das letras e evitar reflexos;
  • Manter uma distância confortável: evitar aproximar excessivamente o celular ou o monitor do rosto e posicionar a tela ligeiramente abaixo da linha dos olhos;
  • Evitar o ar direto no rosto: ventiladores e aparelhos de ar-condicionado podem intensificar a evaporação da lágrima;
  • Priorizar atividades ao ar livre: especialmente na infância, esse hábito contribui para a saúde visual.

Automedicação pode agravar o problema

Os colírios lubrificantes, também conhecidos como lágrimas artificiais, podem aliviar os sintomas do olho seco. Conforme Jordão, as formulações sem conservantes são uma opção preferível, principalmente para quem precisa utilizá-las várias vezes ao dia. A indicação, porém, deve considerar as necessidades de cada paciente.

O médico alerta para os riscos de utilizar colírios por conta própria, sobretudo os produtos destinados a reduzir a vermelhidão. “Os que prometem ‘clarear os olhos’ contraem os vasos e, com o uso repetido, o olho fica ainda mais vermelho quando o efeito passa”, explica.

Já os colírios com corticoides, quando utilizados sem acompanhamento médico, podem elevar a pressão intraocular e aumentar o risco de complicações, como glaucoma e catarata. Além disso, nem todo olho vermelho apresenta ressecamento: infecções e inflamações podem provocar sintomas semelhantes, exigindo tratamentos diferentes. “O que muda o resultado é a forma de usar: piscar mais, fazer pausas, cuidar do ambiente e olhar para longe de vez em quando”, orienta o oftalmologista.

As telas continuam presentes em praticamente todas as atividades diárias, mas, segundo o oftalmologista da Hapvida, a adoção de hábitos mais saudáveis pode reduzir o desconforto e contribuir para o bem-estar visual. “Quando os sintomas são persistentes, recorrentes ou acompanhados de alterações na visão, a avaliação oftalmológica é fundamental para identificar a causa e definir o tratamento adequado”, finaliza.

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