Comunicação entre profissionais da saúde e pacientes auxilia a realização de atendimentos seguros
Cuidar a dosagem de um medicamento, conferir o nome completo do paciente, questionar a existência de alergias ou mesmo verificar se o piso de um estabelecimento médico ou hospitalar está apropriado para evitar quedas, são práticas que promovem a segurança do paciente. O relatório Global de Segurança do Paciente OMS 2024 estima que cerca de um em cada dez pacientes, globalmente, sofrem algum prejuízo em ambientes de saúde e que cerca de metade deles poderiam ser evitados. “Quando falamos em segurança do paciente, significa reduzir questões de risco e evitar alguns danos durante todo atendimento em saúde”, explica a docente de Enfermagem na FADERGS Maristênia Machado Araujo.
Em 2019, a OMS definiu o 17 de setembro como o Dia Mundial da Segurança do Paciente. A data busca conscientizar sobre práticas que envolvem a prevenção de erros durante o processo de cuidado que podem causar algum prejuízo ao paciente. Este ano, o tema da campanha é voltado para o cuidado seguro ao longo de toda a vida, com foco para pacientes de doenças não transmissíveis, que são os tipos de doenças mais comuns na população global. Maristênia explica que são doenças como diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares, câncer e doenças respiratórias crônicas.
De acordo com a docente, estes pacientes costumam apresentar mais riscos de complicações durante internações e, por isso, as práticas de segurança são essenciais. “A adoção de medidas de segurança permite identificar alterações precocemente, reduzir eventos adversos, evitar agravamentos e contribuir para uma recuperação mais rápida e com melhor qualidade”, salienta. Para isso, é necessário manter práticas como acompanhar frequentemente os sinais vitais, controlar medicamentos, observar possíveis alterações no quadro clínico e prevenir quedas, infecções e lesões nos pacientes, assim como assegurar que a alimentação e hidratação estão adequados. “A segurança do paciente durante a internação exige uma atenção individualizada e contínua”, reforça.
Além da internação, doenças não transmissíveis podem necessitar de cuidados ao longo de anos ou toda uma vida. Maristênia aponta a importância do cuidado com medicamentos nestas situações. É importante que os pacientes tomem os remédios na periodicidade e forma adequada, de acordo com a indicação do profissional. Além disso, é preciso informar, em cada consulta com profissionais diferentes, quais medicações estão sendo tomadas e se o paciente tem alguma alergia. Ela explica que é importante saber se o paciente faz uso de algum medicamento, pois algumas substâncias podem interagir e causar efeitos adversos.
Maristênia também considera importante que os pacientes se apropriem do seu autocuidado, entendendo o próprio diagnóstico e mantendo uma postura ativa no tratamento. Este processo envolve desde ir às consultas e realizar exames com a regularidade indicada, o que possibilita ajustes no tratamento, até conversar com o profissional da saúde para sanar dúvidas.
Comunicação como chave da segurança
Para a docente, um fator fundamental para o cuidado adequado em saúde e que, muitas vezes, é subestimado, é a comunicação adequada. “Hoje os pacientes saem dos consultórios com muitas dúvidas ainda”, comenta. Ela percebe que isso ocorre porque as pessoas costumam ter vergonha de demonstrar as dúvidas e aponta que os profissionais da saúde precisam ser claros em suas explicações, assim como se tornar empático e acolhedor quanto aos questionamentos.
Outro erro de comunicação que ela observa é quando os pacientes são chamados para consultas ou exames. Há lugares que chamam apenas o primeiro nome, o que pode causar confusão e pode resultar em laudos e receitas médicas erradas. “É importante a gente ter protagonismo no nosso cuidado e autocuidado. Não ter vergonha de questionar quando nos chamam para algum atendimento”, reforça. A indicação da docente é que, se o paciente for chamado por apenas um nome ou tiver qualquer dúvida durante os procedimentos, ele faça perguntas ao profissional que está conduzindo o atendimento.
A comunicação clara também deve ser feita por porte do profissional da saúde, que deve identificar corretamente o paciente, questionar sobre alergias, explicar que tipo de procedimento será feito, como ocorre, qual a medicação que o paciente deve tomar e como isto deve ser feito. Uma das recomendações de Maristênia é que, ao invés de perguntar simplesmente se o paciente entendeu, o profissional peça para o paciente explicar o que compreendeu do tratamento.
A atenção profissional
A OMS define seis metas internacionais de segurança do paciente, são elas: identificar o paciente corretamente, melhorar a eficácia da comunicação, melhorar a segurança dos medicamentos de alta-vigilância, assegurar cirurgias com local de intervenção, procedimento e paciente correto, reduzir o risco de infecções associadas a cuidados em saúde, e reduzir o risco de danos ao paciente decorrentes de queda.
“Quando a gente identifica uma fragilidade relacionada a alguma das metas internacionais de segurança, já é um sinal de alerta que logo a seguir pode ocorrer algum erro”, explica a docente. Ela indica que é importante que os profissionais da saúde estejam atentos às metas globais para identificar possíveis pontos para melhorar.
Maristênia aponta que a enfermagem desempenha um papel significativo no processo de segurança do paciente, indo desde a triagem de pacientes, onde a comunicação é peça essencial para a continuidade adequada do atendimento, até a identificação de fragilidades nos processos de atendimento que precisam de atenção. Outra função que ela destaca é a de educação contínua dos pacientes sobre o tema.
Por fim, a especialista ressalta que os profissionais de saúde também precisam cuidar de suas próprias rotinas: “o profissional tem que se preocupar e manter o autocuidado para que ele também consiga prestar atenção e realizar um atendimento diferenciado”. Manter o sono adequado para ter foco, assim como manter práticas de cuidado com a saúde, auxiliando no bem-estar e disposição, são algumas práticas que colaboram no atendimento seguro. “Até porque, se nós não conseguimos nos cuidar, como é que a gente vai cuidar bem do outro?”, conclui a docente.
