Para Patrícia de Paulo, diretora pedagógica da Vila Camaleão, mudanças no comportamento infantil também refletem transformações na rotina das famílias, no uso das telas e na forma como adultos lidam com tempo, espera e frustração
Esperar a vez, ouvir um “não”, perder uma brincadeira, dividir um objeto ou lidar com algo que não acontece como se gostaria são experiências comuns da infância. Ainda assim, algumas crianças têm demonstrado mais dificuldade diante dessas situações, o que exige um olhar mais amplo sobre o comportamento infantil e sobre o contexto em que ele acontece.
Para a pedagoga Patrícia de Paulo, diretora pedagógica da Escola Vila Camaleão, em Uberlândia, as crianças não mudaram sozinhas. “Mudaram as relações familiares, os ritmos das casas, a presença das tecnologias, a quantidade de estímulos, as formas de brincar, os espaços de convivência e até mesmo a maneira como os adultos têm se relacionado com o tempo e com a espera”, afirma Patrícia.
Hoje, chegam à escola crianças curiosas, comunicativas, questionadoras e com grande acesso à informação. Ao mesmo tempo, aparecem com mais frequência dificuldades relacionadas à espera, à frustração, à negociação e à convivência.
Esses comportamentos também comunicam. Uma criança que grita, se desorganiza ou entra constantemente em conflito precisa ser ajudada a construir outras formas de se relacionar, mas o adulto também deve buscar compreender o que pode estar por trás daquela reação.
Situações de frustração fazem parte da própria aprendizagem. Esperar a vez ajuda na construção da autorregulação, resolver conflitos contribui para o desenvolvimento de recursos sociais e emocionais e continuar tentando quando algo não dá certo permite que a criança construa recursos para enfrentar novas dificuldades.
De acordo com Patrícia o papel do adulto não é eliminar todas as frustrações da vida da criança. “Também não é provocar sofrimento para que ela aprenda a ser forte. É permitir que ela viva frustrações possíveis, adequadas à idade, sabendo que haverá um adulto disponível para ajudá-la a atravessar aquilo”, explica ela.
Limite também é cuidado
Acolhimento não significa permissividade. Uma criança pode ter seu sentimento reconhecido sem que todo comportamento seja permitido. Se bate porque ficou com raiva, por exemplo, o adulto pode reconhecer aquele sentimento e, ao mesmo tempo, deixar claro que bater não é permitido.
Para Patrícia, um limite saudável precisa reunir três elementos: clareza, constância e vínculo. A criança precisa compreender o que se espera dela, encontrar alguma previsibilidade nas respostas dos adultos e continuar se sentindo respeitada mesmo quando recebe um “não”.
A rotina das próprias famílias também interfere nesse processo. Cansaço, pouco tempo com os filhos e culpa podem tornar mais difícil sustentar limites diante de choros ou conflitos. Isso, porém, não significa que comportamentos infantis possam ser automaticamente atribuídos à falta de limites em casa.
De acordo com a pedagoga, comportamento infantil é multifatorial. “Também envolve idade, desenvolvimento, temperamento, sono, rotina, contexto e necessidades individuais. Nosso papel não é culpabilizar as famílias, mas construir parceria”, explica Patrícia.
O uso das telas também faz parte dessa discussão. A tecnologia está presente na vida contemporânea, mas é importante observar o espaço que passa a ocupar na rotina infantil. O problema está principalmente no excesso e, sobretudo, naquilo que a tela começa a substituir. Brincadeira, movimento, linguagem, imaginação, convivência, natureza e relações são experiências presentes no desenvolvimento da criança.
Na Vila Camaleão, por isso, as telas não ocupam lugar central na proposta pedagógica. Quando utilizadas, estão vinculadas a um objetivo de aprendizagem e contam com a mediação do professor. “A criança precisa tocar, experimentar, construir, correr, observar, perguntar, imaginar, criar e se relacionar”, explica Patrícia.
Projetos colocam autonomia e convivência em prática
A construção de autonomia, convivência e participação das crianças também aparece nos projetos desenvolvidos pela Vila Camaleão ao longo do ano. A proposta é transformar perguntas e interesses dos alunos em percursos de pesquisa, experiências, produções e momentos de compartilhamento com as famílias.
Entre as iniciativas estão a Mostra Literária, realizada em setembro, em que as crianças apresentaram livros produzidos pelas próprias turmas a partir dos projetos estudados; a Noite do Amanhã; o Vila Empreende; entre outros.
Nessas experiências, as crianças são estimuladas a investigar, criar, apresentar aquilo que aprenderam, ouvir outras opiniões e conviver com diferentes ideias. Ao mesmo tempo, encontram educadores responsáveis por organizar os contextos, mediar relações e oferecer referências.
Essa combinação entre participação infantil e presença adulta também está no centro da discussão sobre limites. “O objetivo não é criar uma criança que nunca se frustra. É ajudá-la a desenvolver recursos para atravessar a frustração. O que buscamos é uma infância acompanhada por adultos capazes de sustentar afeto, escuta, autonomia e limite ao mesmo tempo”, conclui Patrícia.
